Desvendando os segredos: o choque dos dois mundos - Parte 1


PARTE 1 do ciclo de aulas ‘‘Desvendando os segredos’’

Total de aulas da parte 1: 5 aulas

Por: Matheus Medeiros Santos

 Turma alvo: 8.º ano

Desdobramento do projeto disponível em: link

Proposta: A proposta do ciclo de aulas ‘‘desvendando os segredos’’ é dissipar muitas das questões pendentes que podem ter surgido após a leitura do conto O Fantasma de Canterville. Nesta primeira parte do ciclo, apresentamos 5 aulas que trabalham com um tema caro para a compreensão do conto de Oscar Wilde: o choque dos dois mundos evidente em sua obra. Por meio dessas aulas buscamos demonstrar para os alunos a tentativa de Wilde de contrapor os dois grandes universos de seu conto: o novo e o velho mundo. 

Habilidades da BNCC: 

(EF89LP33) Ler, de forma autônoma, e compreender – selecionando procedimentos e estratégias de leitura adequados a diferentes objetivos e levando em conta características dos gêneros e suportes – romances, contos contemporâneos, minicontos, fábulas contemporâneas, romances juvenis, biografias romanceadas, novelas, crônicas visuais, narrativas de ficção científica, narrativas de suspense, poemas de forma livre e fixa (como haicai), poema concreto, ciberpoema, dentre outros, expressando avaliação sobre o texto lido e estabelecendo preferências por gêneros, temas, autores. 

(EF89LP32) Analisar os efeitos de sentido decorrentes do uso de mecanismos de intertextualidade (referências, alusões, retomadas) entre os textos literários, entre esses textos literários e outras manifestações artísticas (cinema, teatro, artes visuais e midiáticas, música), quanto aos temas, personagens, estilos, autores etc., e entre o texto original e paródias, paráfrases, pastiches, trailer honesto, vídeos-minuto, vidding, dentre outros.

AULA 1: O velho e o novo


Nesta aula inicial o professor terá como objetivo principal a criação de imagens, na mente dos alunos, do que representa simbolicamente a Inglaterra e os Estados Unidos no conto do Oscar Wilde.

Para alcançar esse fim, nesta aula inicial o professor deve ler descrições de textos de época e, se possível, mostrar aos alunos imagens (tais como as disponíveis em online: https://dornsife.usc.edu/vsgc/19th-century-online-image-resources/) daquilo que era a Inglaterra e os Estados Unidos do século XIX.

Ao fazer esse processo, porém, é importante evitar a já explicação sobre o que representa no conto de Wilde esses dois universos. Deixaremos esta parte para depois.

Quando o professor estiver trabalhando com essa compreensão pelos alunos daquilo que eram os países, sugerimos o seguinte debate coletivo em sala:

  • Essas descrições que lemos e essas imagens que vimos dos dois países nesse mesmo período, vocês notam alguma diferença?
  • E alguma semelhança? Tem algo que é universal nessas duas imagens que criamos dos países?
  • Como vocês definiram os dois?
O docente deve conduzir um debate para algumas reflexões principais, entre elas a de que, a princípio, em imagens e descrições textuais das cidades, não há diferenças muito notáveis entre os países se, por exemplo, fosse posta uma comparação entre Estados Unidos e Índia da época. 
Feito isso, sendo essa uma presumida aula única, recomenda-se que o docente passe a seguinte atividade para casa, a fim de ser debatida na aula seguinte:
  • quem é Senhor Otis no conto e como você, com suas palavras, o descreveria? E o que o Senhor Otis, como americano, fala sobre a Inglaterra e os ingleses ao longo do conto? 

AULAS 2 e 3: O simbolismo da contraposição


A aula pode começar a partir da produção dos alunos sobre a atividade pedida na aula anterior. Por meio das descrições do Senhor Otis feitas pelos alunos e daquilo que o Senhor Otis omite de opinião sobre a Inglaterra, temos um excelente fio condutor para a matriz principal da aula : o que simboliza o senhor Otis (e os americanos e a américa no geral) e o que simboliza o país que essa família de americanos está (Inglaterra).

A seguir, um debate norteador faz-se fundamental: 

  • Os Estados Unidos têm rei ou presidente? E a Inglaterra?
  • O que vocês acham que é um sistema político mais antigo? Reis e rainhas ou presidentes?
  • O que a família Otis faz em relação as manchas do fantasma? Eles buscam uma explicação sobrenatural ou tentam resolver os problemas por meios concretos e materiais?
  • O que vocês acham que significa ter ''sangue azul? Alguém sabe?
  • Agora que vocês sabem o que é ''ter sangue azul'', me expliquem, por que é importante para reis e rainhas tê-lo?
Essas discussões (feitas, aliás, preferencialmente em roda) que se estenderão ao longo dessa aula facilitam a compreensão dos conceitos que o docente deve trabalhar a seguir: representações e simbolismos que Wilde faz.

Os alunos estarão mais capazes de compreender, neste momento, aquilo que o autor utiliza na obra como efeito temático de condução da narrativa e que, por vezes, desconhecendo esse simbolismo criado, perde-se muito do sentido da obra. 

O docente já pode discutir acerca dessas contraposições de Wilde que escancaram elementos essencialmente britânicos como o tradicionalismo, a nobreza, a ligação com tempos passados; com os elementos (dessa vez essencialmente americanos) ligados ao presente (e até em certa medida do futuro) do materialismo, ceticismo, pragmatismo, sociedade industrializada. 

Uma forma, talvez, mais prática de tornar claro para os alunos essa diferença seja demonstrar que os elementos da família americana (eles são materialistas, não acreditam no fantasma, o patriarca da família é um político de um país que é republicano, entre outros) são do presente; enquanto que os elementos britânicos (reis e rainhas, o fantasma e a crença nos presságios e assombrações, o tradicional e a nobreza são representativos do passado. Além, claro, do mais evidente, a Inglaterra (país velho) é a nação que colonizou os Estados Unidos (país novo, recente).''Quem vocês acham que é o mais velho: Portugal ou o Brasil'' é uma forma de escancarar o jogo velho mundo x novo mundo para os alunos.

Atividade para ser feita em casa e trazer para próxima aula:
- Trazer exemplos de dois universos que se contrapõem tal qual o presente no conto do Wilde. 

AULAS 4 E 5: A antítese dos conceitos

Como nesta aula os alunos irão trazer seus exemplos (feitos em casa) de universos que se opõem, temos uma boa oportunidade para trabalhar algumas figuras de linguagem literária que, justamente, se baseiam em contraposições e jogo de mundos contrários: a antítese e o paradoxo.

Antes de conceituar e propor atividades sobre essas figuras para os alunos, seguiremos com a nossa abordagem de foco em debate, formemos uma roda e coloquemos em evidência os exemplos trazidos de casa pelos alunos.

O professor deve, neste momento, conduzir a roda de forma a questionar os alunos das razões que fazem com que os elementos opostos que eles trouxeram sejam, de fato, opostos.
  • O rico e pobre
  • O velho e novo
  • A vida e a morte
  • O sol e a lua (?)
  • A chuva e o sol (?)
  • A água e o fogo (?)
  • A luz e a escuridão
Os elementos acima são algumas oposições genéricas que os alunos podem ter trazido. Aquilo marcado em (?) demonstra uma falsa oposição ou uma oposição discutível. O objetivo, neste momento, é fazer com que os alunos criem, não oposições genéricas tal como essas que eles possivelmente trouxeram, mas que criem representações simbólicas dessas oposições:

  • Quem ou o que podem simbolizar o rico e quem simboliza o pobre?
  • Quem ou o que podem simbolizar aquilo que é velho e quem simboliza aquilo que é novo? (não precisa ser necessariamente duas pessoas!)
  • Quem ou o que podem simbolizar a vida e a morte?
  • Essa é mais difícil, quem ou o que podem simbolizar a luz e a escuridão?
A participação dos alunos na criação desses simbolismos junto com o professor torna mais evidente toda essa abstração necessária para o entendimento desses tipos de oposições por meio de símbolos.

Por fim, neste momento, torna-se possível e mais adequada a explicação de algumas figuras de linguagem como a antítese e a até mesmo o próprio paradoxo.

A antítese, aliás, uma vez que os alunos tenham compreendido a contraposição dos universos, por consequência a do conceito de antítese também: ''Pessoal, sabe esse processo de oposição das palavras que demonstramos? Do rico e do pobre e da luz e da escuridão? Então, isso tem um nome: antítese. Palavras de sentidos opostos em uma mesma frase. E isso é mais comum do que a gente pensa! Quem nunca ouviu algo como 'o paciente está entre a vida e morte' ''. Este é um exemplo de como lidar com o conceito de antítese em uma aula em que faltou, apenas, ''dar nome aos bois''.

Já o paradoxo requer um pouco mais de abstração para a compreensão, uma vez que é uma oposição não de palavras necessariamente, mas de ideias. Para isso, o docente pode utilizar exemplos que sejam do universo dos alunos, presentes na coloquialidade como ''sonhando acordado''. 


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