Sequência didática sobre conjunções coordenadas e período composto por coordenação


 

Habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) relacionadas com a sequência:

 

(EF06LP07) Identificar, em textos, períodos compostos por orações separadas por vírgula sem a utilização de conectivos, nomeando-os como períodos compostos por coordenação.

 

(EF69LP56) Fazer uso consciente e reflexivo de regras e normas da norma padrão em situações de fala e escrita nas quais ela deve ser usada.

 

(EF07LP11) Identificar, em textos lidos ou de produção própria, períodos compostos nos quais duas orações são conectadas por vírgula, ou por conjunções que expressem soma de sentido (conjunção “e”) ou oposição de sentidos (conjunções “mas”, “porém”).

 

Esta sequência didática, planejada para ser aplicada com turmas de 7º ano do Ensino Fundamental Anos Finais, visa sensibilizar os estudantes sobre a classe de palavras das conjunções, especificamente as coordenadas, como estruturas da língua responsáveis pela articulação discursiva de períodos compostos e portadoras de diferentes cargas semânticas. Para tanto, escolhe-se como corpus de análise desse fenômeno linguístico a tradução brasileira da obra O fantasma de Cantervill[1]e de Oscar Wilde feita por Rodrigo Espinosa Cabral.

Opta-se, aqui, por uma abordagem de ensino gramatical mais indutiva e do texto à gramática (top-down). Igualmente, alinhado a uma perspectiva sociointeracionista, propõe-se que as questões sejam respondidas em duplas ou trios com constante participação da(o) docente, que pode circular pela sala de aula durante a execução da atividade, conversando com os alunos para verificar como estão respondendo às perguntas e se apresentam alguma dúvida.

Sugere-se, idealmente, que a sequência seja aplicada em quatro aulas: duas para a realização dos exercícios um e dois – se forem seguidas (“dobradinha”), pode agilizar a organização da sala e facilitar a compreensão das ideias continuamente, sem interrupção –; uma para a correção comentada com participação das/os estudantes, que pode ser feita oralmente ou em lousa, conforme a avaliação do docente de melhor metodologia para suas classes; e uma última para realização do último exercício e respectiva correção (que pode vir a se estender por mais um trecho da aula seguinte). Indica-se também que o/a educador(a) planeje uma quinta aula de sistematização teórica dos conceitos mobilizados ao longo dos exercícios.    

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1) Um dos elementos principais de histórias de ficção é o espaço onde as ações da narrativa irão se passar. Observe como o escritor inglês Oscar Wilde descreveu um dos cenários em que se passavam sua novela O fantasma de Canterville.    

 

“O dia estava lindo e eles estavam todos de muito bom humor. Durante o trajeto, naquela bela tarde de julho, a família Otis pôde sentir o aroma refrescante dos pinheiros, escutar o som doce de pombos e faisões e ver esquilos e coelhos atrás das árvores.” (WILDE, 2005, p.3 - adaptado[2])

 

a) Para compor cada um dos cenários, o narrador constrói frases grandes com mais de um verbo em cada. Em um texto, chamamos de período cada frase iniciada por letra maiúscula e encerrada pelo sinal gráfico do ponto final com a presença de um, dois ou até mais verbos. Quando na frase há mais de um verbo, então chamamos de período composto. Quantos períodos podemos identificar no parágrafo acima? Todos são períodos compostos? Utilize lápis de cores diferentes para sublinhar cada período encontrado.

 Resposta: 2 períodos. Sim, ambos são períodos compostos.

O dia estava lindo e eles estavam todos de muito bom humor. Durante o trajeto, naquela bela tarde de julho, a família Otis pôde sentir o aroma refrescante dos pinheiros, escutar o som doce de pombos e faisões e ver esquilos e coelhos atrás das árvores.

 

b) Releia os períodos que você identificou. Como o autor descreveu o dia, a paisagem e o comportamento da família Otis?

Neste exercício, a/o estudante precisa destacar que o dia descrito era belo, o cenário foi comporto por imagens bonitas de animais na natureza e que a família estava de bom humor e apreciando a paisagem natural. É interessante sugerir que não haja cópia do texto, mas paráfrase.  

 

c) Em sua opinião, esse cenário que o autor criou se parece um cenário típico de histórias de terror? Por quê?

Embora sejam perguntas de resposta pessoal, espera-se que a/o estudante responda negativamente a primeira e, na segunda, opine sobre o que entende por um cenário de terror.

 

d) Como foi dito antes, um período é uma frase na qual podem estar presentes um ou mais verbos. Cada verbo compõe o que chamamos de oração. Veja o primeiro período: “O dia estava lindo e eles estavam todos de muito bom humor.”. Nele, há dois verbos. Quais são esses verbos?

Resposta: “estava” e “estavam”.

 

e) As orações são enunciados completos, com sujeito, verbo e complementos, se necessário. Podemos dizer, a partir da sua resposta anterior, que dentro do período “O dia estava lindo e eles estavam todos de muito bom humor” há duas orações: “O dia estava lindo” / “eles estavam todos de muito bom humor”. Que palavra permitiu juntar essas duas orações dentro de um mesmo período?

Resposta: A palavra “e”.  

 

f) Agora, faça a mesma divisão de orações com o segundo período. Utilize novamente os lápis de cor para separar as orações. Quantas orações você encontrou? Dica! : lembre-se da regra de que para ser oração precisa ter verbo, então não se deixe enganar pelas vírgulas.

Durante o trajeto, naquela bela tarde de julho, a família Otis pôde sentir o aroma refrescante dos pinheiros, escutar o som doce de pombos e faisões e ver esquilos e coelhos atrás das árvores.

Resposta: três orações.

 

g) As orações que você separou estão conectadas dentro do período:

( ) apenas por vírgulas.

(X) por vírgulas e por “e”.

( ) apenas por “e”.

( ) por ponto final.

 

h) Como você viu, quando um período possui mais de uma oração, elas precisam estar conectadas por algum recurso como a vírgula ou uma palavra como “e”. Palavras como “e”, que relacionam duas orações ou até dois termos semelhantes em uma mesma oração (exemplo: Eu e você fomos à praia), são chamadas de conjunções. As conjunções não apenas ligam as orações, mas estabelecem uma relação de sentido entre elas. Qual é a relação de sentido que a conjunção “e” estabelece entre os termos e as orações que ela liga?

( ) relação de oposição (liga uma ideia contrária a outra).

(X) relação de adição (liga duas ideias que se somam)

( ) relação de conclusão (liga uma ideia a outra que é sua consequência lógica)

( ) relação de alternação (liga duas opções; ou uma ou outra)

 

2) Após aquele trecho lido no exercício anterior, o escritor de O fantasma de Canterville continua fazendo a descrição do cenário. Abaixo, o parágrafo completo:

“O dia estava lindo e eles estavam todos de muito bom humor. Durante o trajeto, naquela bela tarde de julho, a família Otis pôde sentir o aroma refrescante dos pinheiros, escutar o som doce de pombos e faisões e ver esquilos e coelhos atrás das árvores. No entanto, quando chegaram na avenida do castelo, o céu nublou de repente, o ar ficou parado, sem produzir sequer o barulho do vento, um bando de gralhas sobrevoou a carruagem em silêncio e, ao avistarem a casa, pingos grossos de chuva caíram sobre suas cabeças.” (WILDE, 2005, p.3)

 

a) Quando as personagens chegaram à avenida do castelo, o cenário era o mesmo que foi descrito anteriormente, de uma bela tarde? Se não, escreva com suas próprias palavras o que mudou?

Espera-se que a/o estudante interprete que há um forte contraste entre o primeiro cenário e o segundo.

Professor(a): é interessante orientar as/os estudantes a não copiarem meramente o trecho de novo, mas tentarem uma paráfrase ou uma resposta com discurso indireto.

 

b) Esse cenário da avenida do castelo se parece com um ambiente típico das histórias de terror? Por quê?

Nesta resposta, as/os alunas/os deveriam reconhecer, a partir de seu repertório prévio de histórias de terror, que sim, se trata de um cenário convencional de terror devido aos elementos soturnos e de suspense como o céu nublado, a chuva forte, a ausência de som e as gralhas que, em bando, sobrevoavam a carruagem.

 

c) No exercício anterior, vimos que as conjunções, como a palavra “e”, servem para fazer conexões entre palavras e entre orações. Mas elas podem conectar períodos também. Quando um conjunto de palavras, normalmente de duas, tem essa mesma tarefa de conexão, o nomeamos locução conjuntiva. No texto, foi usada uma locução conjuntiva para marcar a troca de cenários. Qual locução foi essa?

Resposta: “No entanto”.

 

d) Reveja a relação de sentido que a conjunção “e” estabelece entre os dois elementos que conecta (lembre-se da sua resposta na questão 1h). É a mesma relação de sentido que essa locução conjuntiva que você acabou de identificar? Se não, qual seria?

As/os estudantes precisam, aqui, reconhecer que há uma diferença de sentido entre “e” e “no entanto”, embora ambas tenham a mesma função, enquanto conjunções, de conectar elementos. Além disso, espera-se que a/o aluna/o, percebendo que há essa diferença, explique que “no entanto” oferece uma ideia de oposição entre os elementos que conecta. Como forma de ajudá-las/os a explicar a relação de sentido, é aconselhável que se apropriem da metalinguagem utilizada na questão 1h, por isso aqui mencionada.

 

3) Apesar dos elementos de terror, O fantasma de Canterville não é uma história de terror propriamente dita, mas uma paródia que provoca humor. Veja nesse trecho um exemplo de momento de humor da narrativa.

 

“Uma coruja bateu contra a vidraça e um corvo grasnou ao longe. O vento soprava fortíssimo e a chuva fazia barulho nas janelas. No entanto, o som mais alto ouvido na mansão era o do ronco do ministro dos Estados Unidos”. (WILDE, 2005, p.10 - adaptado[3])

 

a) Vamos retomar os conceitos já aprendidos. Com barras |, separe os períodos desse parágrafo. Depois, sublinhe as orações com cores diferentes. Por fim, circule as conjunções que conectam orações/períodos.

Uma coruja bateu contra a vidraça e um corvo grasnou ao longe. | O vento soprava fortíssimo e a chuva fazia barulho nas janelas. | No entanto, o som mais alto ouvido na mansão era o do ronco do ministro dos Estados Unidos”.

b) Nesse trecho, o autor provoca o efeito de humor quebrando nossa expectativa. Ao ler os dois primeiro períodos, o que poderíamos esperar que viria em sequência?

Resposta pessoal. Independente do que registrarem, espera-se que seja algum fato ligado ao terror. Há a possibilidade de respostas mais simples como “Poderíamos esperar alguma coisa assustadora” ou mais de criativas, narrando algum acontecimento mais específico que as/os estudantes imaginaram.

c) Através de que expressão o narrador marca textualmente a oposição entre o cenário de terror e o fato que provoca o humor da cena? Como ela pode ser classificada gramaticalmente?

Resposta: “No entanto”. Pode ser classificada como “conjunção” ou “locução conjuntiva”.

 

d) Se, ao invés de ter escrito “No entanto, o som mais alto ouvido na mansão era o do ronco do ministro dos Estados Unidos”, o autor escrevesse “E, o som mais alto ouvido na mansão era o do ronco do ministro dos Estados Unidos”, o efeito de humor e de quebra de expectativa ainda seria possível?

Esta questão tende a gerar reflexões e debates. Como afirmam os gramáticos Celso Cunha e Lindley Cintra (CUNHA & CINTRA, 2017, p.596[4]), a conjunção “e” pode ter, por vezes, sentido adversativo, dependendo do contexto do discurso. Não há uma resposta completamente correta. É possível, então, que as/os estudantes demonstrem dúvidas e apresentem diferentes opiniões em relação à esta pergunta.

Professor(a): é interessante aproveitar esta oportunidade para promover o debate e trabalhar a análise linguística com a turma, apresentando a língua como um fenômeno vivo e um objeto de estudo científico e não como uma estrutura inflexível e invariável prescrita por gramáticos.      

 

e) Como estamos lendo uma tradução, o tradutor poderia trocar a locução “no entanto” por outra conjunção com o mesmo sentido. Assinale, na lista abaixo, quais poderiam ser as outras possibilidades de conjunções para esse período.

(X) Porém o som mais alto ouvido na mansão era o do ronco do ministro dos Estados Unidos.

( ) Nem o som mais alto ouvido na mansão era o do ronco do ministro dos Estados Unidos.

( ) Portanto, o som mais alto ouvido na mansão era o do ronco do ministro dos Estados Unidos.

(X) Mas o som mais alto ouvido na mansão era o do ronco do ministro dos Estados Unidos.

(X) Contudo o som mais alto ouvido na mansão era o do ronco do ministro dos Estados Unidos.

( ) Ou o som mais alto ouvido na mansão era o do ronco do ministro dos Estados Unidos.

(X) Entretanto o som mais alto ouvido na mansão era o do ronco do ministro dos Estados Unidos.

( ) Porque o som mais alto ouvido na mansão era o do ronco do ministro dos Estados Unidos.

(X) Todavia o som mais alto ouvido na mansão era o do ronco do ministro dos Estados Unidos.



[1] WILDE, Oscar. O fantasma de Canterville. Adaptação de Rodrigo Espinosa Cabral. São Paulo: Rideel, 2005.

[2] Para fins didáticos, faço uma pequena adaptação no texto traduzido, omitindo a oração reduzida que poderia gerar dificuldades para estudantes de sétimo ano. Este é o trecho original: “O dia estava lindo e eles estavam todos de muito bom humor. Durante o trajeto, naquela bela tarde de julho, a família Otis pôde sentir o aroma refrescante dos pinheiros, escutar o som doce de pombos e faisões e ver esquilos e coelhos escondendo-se atrás das árvores.”

[3] Adapto aqui o parágrafo da tradução original para não confundir as/os estudantes com orações reduzidas e orações relativas, conteúdos sintáticos mais avançados. Este é o excerto original: “Uma coruja bateu contra a vidraça e um corvo grasnou ao longe. O vento soprava fortíssimo e a chuva fazia barulho nas janelas, dando a impressão de que havia almas penadas pela casa. No entanto, o som mais alto que se escutava pela mansão era o do ronco do ministro dos Estados Unidos”.

[4] CUNHA, Celso & CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro: LEXIKON Editora Digital ltda, 7.ed. 2017.

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